Acompanhei um cachorro durante uma semana inteira. Tinha por objetivo mostrar a ele os melhores lugares para urinar em toda cidade. Queria que ele visse que o certo não era urinar no seu quintal, mas sim no quintal dos outros. Só assim ele ascenderia ao grupo dos cães-guia, cães de madame etc. Mas ele nunca me disse ao certo que queria aprender a urinar em outros lugares. Eu que o instiguei, na verdade. Era melhor aprender logo ou ele nunca sairia daquele quintal imundo em que vivia urinando. Aquilo era um chiqueiro só! Emporcalhado.
Sam era um cão burro. Nunca quis vislumbrar novos horizontes; a única coisa nova que ele fazia era morder seu rabo de diferentes maneiras a cada dia. Sim, porque ele mutilava tudo o que era seu. O rabo, o quintal. Eu dizia muita coisa a ele. Tentava colocá-lo em um novo mundo, onde pudesse compactuar com a urina de outros postes. Tudo bem que não se compara um poste a um quintal, mesmo que emporcalhado, mas a questão era o novo, o diferente, que ao mesmo tempo o faria crescer no bairro.
Certo dia, em uma das minhas corriqueiras passagens por ali, pedi ao dono do Sam que me permitisse uma volta no quarteirão com ele. Permitiu-me o passeio e, como já estava farto daquela imundice, colocou-me uma proposta:
-Ei, Poll, fica com ele. Pode levar, não me faz falta nenhuma.
Eu, nesse momento, pensei por alguns instantes no porquê do dono estar me oferecendo um cachorro tão indecente quanto ele. Pensei que poderia ser uma enrascada. Mas já naquela altura do campeonato, em que todo santo dia eu estava acariciando Sam, também seria contraditório se ao menos não dissesse que iria pensar com carinho no caso. No entanto, na empolgação do instante, ferrei tudo.
-Ah, uma ideia considerável. Porque não fazemos um acordo. Fico com ele uma semana e ao final dela, dependendo da situação, eu o adoto pra sempre.
-Por mim tudo bem - disse o dono do cachorro, que logo em seguida ajoelhou-se e proferiu palavras de ordem ao Sam.
-Titio, vem cá. Veja bem, se você voltar aqui, nós te mandamos de volta pro canil, tá? Não estou brincando.
Como os pinguins, sorri e acenei. Até o cachorro se sentiu constrangido. Não pude notar a expressão, mas certamente houve um constrangimento.
Dai que me surgiu a ideia de levar o Sam para urinar cada dia em um novo ponto. Era pra ele se desvencilhar daquela velha ideia de urinar no seu quintal. Já pensou se ele emporcalha o meu quintal? De jeito nenhum - pensei. Na primeira vez o levei para urinar numa rua que tem atrás do meu apartamento. Rua Nicarágua, sabe? Pois bem, ele gostou bastante de lá. Foi mais de uma vez até. Mas eu não queria que ele se acostumasse a ir lá. Queria algo mais abrangente.
No segundo dia, Sam urinou em um lugar tão perto quanto aquela rua. Foi urinar na Alameda Cuba, continuação da nossa rua. Lá havia muito daqueles cães-guia, sabe? Foi tão complicado que o meu cão saiu de lá com o rabo entre os dentes. Mas não dei folga. Na quarta-feira o levei até uma continuação da Alameda de terça. Ele urinou várias vezes, na Rua Haiti, tão famosa pelas enchentes que a tornava um verdadeiro ambiente praieiro.
Eu já estava me perguntando se o cão lembraria do lugar em que urinou na segunda, por exemplo. E, sobretudo se ao fim dessa metodologia, haveria o que valesse a pena. Deixei esse pensamento melancólico de lado e fui à luta...
No quarto dia, tomei as rédeas dessa urina toda. Levei-o até a Avenida Boliviana e o fiz urinar em um mendigo já caído ao chão. Proferi: "Sim, é válido chutar cachorro morto." Depois pensei como é bom o Sam não entender nada de português.
Já na sexta, fi-lo beber muita água. No túnel Juan Guatemalteco, havia muito que demarcar.
E o cão não deixava de labutar sobre o porquê disso tudo. Às vezes, quando chegávamos no poste, ele me olhava confuso. Eu não sabia o que dizer. Só falo uma língua.
No sábado, ele quem me guiou. Definitivamente já estava acostumado ao ritual e eu sabia que escolheria um novo lugar, diferente dos já frequentados. Fomos até a favela do Panamá, passamos por inúmeros postes, nos quais Sam fazia questão, por livre e espontânea vontade, de deixar sua marca.
Só faltava mais um dia para eu decidir se ficava ou não com o cão, que a meu ver, sofria de incontinência urinária. Mas não era especialista no assunto.
Logo, apenas fiz por cobrir a meta e o levei no domingo para urinar no parque Colombiano, um lugar bem arborizado e templo das ervas medicinais no bairro.
"Pronto", pensei. Agora Sam não vai mais urinar no quintal, seja em qual casa estiver. Eu havia o levado apenas em lugares pertos de casa, para que ao menos uma vez por dia o soltasse para fazer suas necessidades pela vizinhança. Empolguei-me e fui ao quintal imundo em que Sam vivia antes e anunciei ao dono que ficaria com ele pra sempre.
Quando amanheceu segunda-feira, meu vizinho tocou a campainha de maneira atordoada. Corri a ver o que era. Eis que ele grita:
- Poll, seu cão acabou de urinar na minha casa e na de mais quatro aqui no bairro só essa manhã.
Logo imaginei o óbvio: havia me esquecido de mostrar ao Sam, de alguma forma que não era pra ele continuar urinando em lugares diferentes, mas que agora era pra repetir, alternadamente, esses 7 lugares. A inocência foi minha de pensar que um cachorro saberia temporizar suas urinadas.
Sam já fazia o serviço por si só. Eu não podia mais controlá-lo. E também não podia mais devolvê-lo. Era uma obra minha que agora não mais podia ser comandada.
O que tentei dai em diante, foi prendê-lo, o máximo possível em casa. Ele apenas saía para urinar, seja aonde fosse, nos lugares mais longínquos. Mas ele sempre voltava, até porque a água que o fazia urinar só era de bom grado no seu quintal. Suplicava para que ele não engravidasse nenhuma cadela pelas ruas, nenhuma mesmo. Até o castrei, depois de algumas semanas. Entretanto, acho que já era tarde.
Todas as noites, Sam voltava com uma cadela das ruas a qual, obviamente, não entrava em meu quintal. E, mesmo orando para que isso não acontecesse, depois de poucos meses, a infeliz procriou. Vivo, nasceu um só, pelo menos.
Eu oscilei em ficar com esse cão. Tinha medo que acontecesse com ele o mesmo que aconteceu com seu pai. Baseado em uma nova ideia que eu estava formulando, decidi ficar com o cãozinho, que também era macho.
Dessa vez comecei diferente. Não quis que o pai influenciasse em nada. Deixei o Sam em casa e levei o filhote para urinar num beco sem saída que tinha logo acima da Rua Nicarágua. O Beco Hondurenho.
O nome que eu havia dado ao cachorrinho?
Brazil.
1 de outubro de 2009
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20 comentários:
Olha meu velho,muito inteligente tua produção,difícil de encontrar na Blogosfera.Parabens!
Ual, isso é pra ser publicado, companheiro!!! parabens parabens que orgulho! queria escrever como vc!
parabens de verdade!
Nossa ... muito bom o texto! Me fez lembrar o livro de Marley e EU, mas pelo menos o seu Sam era mais obediente!
Abraços!
http://kultura-inutil.blogspot.com
Você escreve muito bem!
Parabéns!
www.teoria-do-playmobil.blogspot.com
texto interessante, boas metaforas
se puder passe no meu blog
http://oarlecrim.blogspot.com
Zée...
perfeito o texto.
Como vc conseguiu fazer esse paralelo hein?
Ótima metáforo, muito boa mesmo...
Tbm acho q devia ser publicada, rs.
Bjos zézinho.
Olha cara,legal,sarcastico e inteligente.Gostei!
incrivel como vc discutiu poltica e urina de cachorro ao mesmo tempo.tá de parabens
Sem ter noção da tua capacidade como redator, eu imaginei de início que poderia ser mais uma historinha da Blogosfera. Mas, ao continuar a leitura, pude notar uma aptidão muito forte para o sarcasmo inteligente, e a visão crítica, que foi bem construída numa visão geral do texto. É sempre bom ter uma surpresa como essa, nada de ser previsível. Valew !
Esse texto pode ser trabalhado em sala de aula.
Apesar de ver as coisas, politicamente falando, sobre outra óptica... não posso deixar de parabenizá-lo pela tua habilidade de análise e interpretação.
Você estuda ciência política? Senão, deveria. Apesar de,como já disse antes, discordar da tua visão, reconheço que o Brasil necessita de jovens pensantes, como você!
____
http://planetabandonado.blogspot.com
"O nome do cachoho: Brasil" foi muito foda
li de novo pra poder ficar mais atento a tudo...
Que "cachorrada"!
Coloca isso numa coluna de jornal de circulação pra ver o que faz a Polícia Federal...
Brincadeirinha. Texto muito bom, me fez pensar um bocado. Assunto para aulas de Ciência Política, sem a menor dúvida.
Abraço ae
Gostei do final. Inteligente e sagaz...poucas vezes vi isso em algum blog. A pitada politica entre Honduras e Brasil foi fantástico.
Blog: Cultura Dinâmica - www.culturadinamica.wordpress.com
Caramba, muito bom teu texto, PARABÉNS, você sabe lhe dar muito bem com as palavras.
Humbertooooooooooo!
Confesso que me assustei com o tamanho do texto, mas não me arrependo nem um pouco de tê-lo lido até o fim! Parabéns, se você tem um dom é o de mandar bem com as palavras, fato!
Zéezis
Que texto é esse amigo?
Chega a ser confuso de tão bom!!
Você mesmo quem escreveu?
Tá mto bem ensinado!!! rs
Beeijo.
aew! é isso mesmo. parabens
Bem produzido hein !
Parabéns
parabens hj é dificil encontrar conteudo de qualidade
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