Maio de 2014. Aquela menina de 12 anos, sardenta, magra e desapegada com os estudos, via na TV a rodada do futebol e xingava muito o homenzinho com o apito. Do outro lado do município, numa área mais erma, um garoto dois anos mais velho adentrava a casa sujo de lama e chorando com as mãos no joelho arroxeado. Já o rapazote estava no centro da cidade, era quatro anos mais velho que o garoto e tinha acabado de terminar o expediente intenso na obra do novo estádio da cidade. Os três torciam a finco pela boa realização da Copa do Mundo no Brasil. A menina havia ficado eufórica com a possibilidade de uma Copa do Mundo na sua cidade. O garoto já sonhava em ir ao estádio ver um dos jogos. O rapazote, numa mescla de paixão e ambição, não via a hora de poder bradar aos amigos que ajudara na exímia realização do evento.
Assim, felicidade. Certamente, um evento da magnitude de uma Copa do Mundo trazia felicidade para os cidadãos. Um emaranhado de novos turistas, - que davam a impressão de que estávamos todos lucrando com o acontecimento - associado à torcida e movimentação em torno das equipes, principalmente a anfitriã, eram alguns dos fatores que aumentavam a taxa de felicidade da população. Ainda o fato de ver o país exposto de forma parcialmente positiva para o resto do mundo solucionava em tempo o complexo de vira-lata dos brasileiros.
Os três perfis talvez não precisassem pensar ali o que uma Copa do Mundo trazia, por certo e concreto, para o país. O evento, como havia afirmado um famoso jornalista esportivo há quatro anos, poderia ser associado a um grande anúncio publicitário. Um grande anúncio que perduraria por 30 dias. Bem ou mal, a imagem do país se exporia para o mundo enquanto ocorressem as partidas de futebol, enquanto houvesse temas acerca das peculiaridades do Brasil e dos brasileiros para serem televisionados, e enquanto houvesse turistas por ali.
Praia, superfaturação de ingressos, água de côco, inflação do orçamento inicial, índios, corrupção, mulatas, assaltos, Amazônia, superfaturação de estacionamentos, macacos, Brasília, sujeira, tráfico de drogas, cerveja, Rio de Janeiro, desorganização, ola da torcida, superfaturação do combustível, endeusamento dos jogadores, carnaval, crime organizado, potência emergente, xenofobia, etanol, caos aéreo, catolicismo, transporte rodoviário e futebol. Esses estavam sendo alguns dos temas dissecados pela CNN em uma série com reportagens especiais que apresentavam o Brasil ao mundo. Caso fosse relevante, a menina teria acrescentado arbitragem corrupta, o garoto futebol de várzea e o rapazote o progresso da construção civil.
Essas palavras também compunham facilmente uma nuvem de tags em algum outdoor na Rodovia Bandeirantes. Um anúncio do anúncio. Um anúncio da Copa do Mundo, limitado à realidade de dizer as coisas como elas são. Já o anúncio de 30 dias, a grande peça publicitária, com show de abertura, competições intensas, luzes e bola rolando, corria o risco de descambar para uma grande bancarrota.
Em se tratando de grandes eventos mundiais, os brasileiros tinham como bom espelho os Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, os quais foram um dos anúncios com melhor feedback que já se havia visto até então. Quem teve a oportunidade de acompanhá-los viu uma Espanha moderna, pós-Franco. Uma Espanha democratizada que havia crescido como potência esportiva e econômica – exceto pela crise européia de 2008. Nunca mais o país parte da península ibérica levara apenas uma medalha de ouro para casa, como havia sido em Seul 1988. A Espanha chegaria ao Brasil, caso houvesse a Copa, com o posto de atual campeã, já que havia vencido pela primeira vez uma Copa do Mundo, na África do Sul, há quatro anos.
Já como exemplo de mau anúncio os brasileiros tinham um padre maluco que havia interrompido um maratonista prestes e faturar a medalha de ouro. Era o mau anúncio de Atenas 2004, fartamente responsável até aqueles dias pela crise grega vivida desde 2008. O assassinato do sogro do técnico da seleção masculina de voleibol dos Estados Unidos em Pequim, nos Jogos Olímpicos de 2008, também era um mau anúncio que os brasileiros poderiam seguir. Poderiam seguir ainda o seu próprio exemplo de mau anúncio, oriundo de 2007, dos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, cujo orçamento havia sido inflado mais de 400%.
Em uma das reportagens da CNN, o repórter estava no centro da cidade entrevistando um grupo de construtores bem vestidos, ao lado da obra do estádio, ao vivo, para todo o mundo. O rapazote já notara há algum tempo a movimentação anormal em torno da obra e resolvera, na sua hora do lanche, ir até a rua, ver o que acontecia. Só observou o furor com que o repórter pressionava os construtores, afirmando ser impossível entregar o estádio pronto até a Copa, a qual estava marcada para começar em 17 dias.
A menina, em seu sofá, à noite, ficava cada dia mais tensa com as notícias de que as obras não conseguiriam ser entregues a tempo e que a Copa corria riscos de ser cancelada. O garoto, como não gostava de ver telejornal, não sabia ao certo qual a situação da Copa, mas já havia conseguido, após dois dias de revezamento na porta do estádio com seu amigo, seu ingresso para ver Trinidad e Tobago x Croácia.
Se o engajamento do rapazote era cada dia mais intenso, a indiferença dos organizadores às perguntas ascendentemente combativas dos repórteres era cada vez mais visível. “Não falamos sobre atrasos”, tachavam. “Não há como garantir que a Copa vai acontecer com perfeição, como eles querem.”, explicavam. “A questão aqui não é apontar um culpado. Temos que melhorar o planejamento para as Olimpíadas.”, contavam. “O Irã já está construindo dois estádios móveis para suprir nossas demandas. Serão de última tecnologia!”, solucionavam. Pressões de todos os lados: atletas, torcedores, governantes de vários países, primeiros-ministros, e claro, da FIFA, deixavam a situação cada vez mais incontrolável.
16 de junho de 2014, dia marcado para a abertura da Copa do Mundo FIFA Brasil 2014. A menina assistia TV, o garoto voltava do futebol e o rapazote pedia as contas.




0 comentários:
Postar um comentário