f S(tree)okes | IDENTIFICÁVEL

15 de maio de 2011

S(tree)okes

Para uma banda de relativa visibilidade no cenário musical, ficar cerca de cinco anos sem produzir algo inédito é no mínimo arriscar a fidelidade dos fãs. Para os nova-iorquinos do Strokes, o novo álbum Angles (em livre tradução, algo como “pontos de vista” ou “ângulos”) significa reinvenção e readequação das qualidades técnicas e criativas presentes nas mentes de Casablancas, Hammond, Valensi, Fraiture e Moretti.
Logo, tendo a banda e o novo álbum grande relevância, não se pode fazer análises vazias de embasamentos objetivos e cheias de subjetividade como faz Lizandra Pronin, no Território da Música. Para a resenhista, “O disco traz dez faixas interessantes ora meio sujinhas e cruas, ora com efeitos pouco orgânicos - como em "You're So Right" - e até dançantes. Numa primeira audição a impressão é de que se ouve uma coletânea, já que as canções carecem de coesão: cada uma aponta para um estilo diferente”. Para se definir o que, aos olhos de Lizandra, são “faixas interessantes ora meio sujinhas e cruas”, seria necessário no mínimo um outro post no seu site. Subjetividade pura, que não estimula a se quer tentar uma primeira execução de Angles.
Assim, mesmo a indicação de que as músicas têm múltiplos estilos, a olhos inocentes, não pode ser considerada uma crítica avassaladora sobre o álbum. A multiplicidade de estilos demonstra amadurecimento e pluralidades únicos de quem sabe reconhecer a qualidade da grama do vizinho (além de um reconhecimento particularmente humilde de sua própria qualidade e a de seu estilo).

O fato é que o novo álbum do Strokes – chame-o eclético, dentro do universo do quinteto, caso queira – é um prato cheio às críticas pesadas e cegas. Algumas até vêm descarrilando em argumentos fracos, seguidamente repetidos por “críticos musicais”. “Crítico” entre aspas, pois crítico bom não espera a opinião geral, e sim escreve em paralelo a ela, sem medo de distinguir-se da massa.
David Fricke, na edição 53 da Rolling Stone Brasil, foi feliz em expor de maneira clara os reais objetivos e dificuldades enfrentados durante a produção de Angles. É claro que quando se trata de agregar valores e aspectos pessoais ao estilo musical de cada um, a dificuldade se torna proporcional. Nesse caso, há de se concordar com Fricke: “O maior problema para chegar a Angles foi fazer com que todos ficassem em uma mesma sala para realizar qualquer coisa”. Mesmo que mais informativo, o texto de Fricke acaba flertando com qualidades sisudas das músicas do álbum, como a empolgação expressiva das guitarras cruzadas em uníssono e o tradicionalíssimo estilo seco do vocal de Casablancas.
Uma das faixas do álbum chama muito a atenção de quem está acostumado com o estilo acima descrito e facilmente encontrado na maioria das faixas do Strokes. “Games” é leve, astuta e lembra muito, mas muito mesmo, o indie rock do século passado: sem compromisso, feito por fazer. Só lembra, porque a faixa foi feita pra vender, como tudo o que é produzido hoje em dia. Ainda nas faixas, destaque assertivo para “Gratisfaction”, strokiana da raiz às folhas. Aliás, se o álbum fosse uma árvore frutífera, colocaria Casablancas como o jardineiro e Valensi e sua guitarra como o catalisador não-natural para a frutificação.
            A crítica do Isto é Música segue um roteiro pré-estabelecido de expor cada canção, de forma perspicaz e comprometedoramente irreversível. Talvez por isso seja uma das análises mais responsáveis sobre o álbum. Ela diz algo que provavelmente muitos fãs sentiram: a apreensão criada pela inundação de críticas negativas em relação ao álbum. Essa apreensão, após a primeira audição, traduziu-se em alívio e desejo de justiça. “Um álbum bom de ouvir, com variações, sem se repetir internamente e sem ser mais do mesmo”.
            A partir do momento em que a banda alcança o reconhecimento e a fama, a maior tentação se converte em desafio: sair da zona de conforto. Para isso é preciso arriscar, sem dúvidas, a confiança do seu umwelt. Strokes se plantou como uma banda de rock. Seja indie, alternativo ou de garagem, utilizaram o fertilizante desse grupo de pessoas e cresceram, cresceram.
Hoje, sem poda nem corte, a mesma árvore aceitou uma nova, plantada logo acima. Veja bem, não é um pomar, é uma árvore-siamesa.

Resenhas criticadas:
  • Território da Música, The Strokes: Angles
  • Rolling Stone, Fim das Longas Férias
  • Isto é Música, Angles – The Strokes

1 comentários:

Carla F. disse...

Sério, Zé, muito boa metáfora :)
Ainda prefiro Under Cover of Darkness, mas Games também arrasou! haha
Beijoooos