Minha avó tem 72 anos e hoje fomos levá-la ao médico.
Feita a consulta, corremos almoçar num restaurante próximo. Enquanto comíamos, reparei que ela olhava com certa curiosidade para uma moça que havia acabado de entrar com uma daquelas cestinhas de bebê que se leva com as mãos. Como estava de costas, não dava pra ver o que tinha dentro. Vovó estava curiosa e não se furta já há alguns anos em falar na altura necessária para que seu aparelho de ouvido capte bem o som.
- Olha, ela está levando um cachorrinho, que bonitinho.
- Vó, não é um cachorrinho, deve ser um bebê.
Silêncio. Continuamos almoçando e alguns minutos depois a moça resolve ir embora. Passa por nós, mas com o pequeno berço do lado contrário ao da nossa mesa.
- Ei, moça, vem cá, deixa eu ver! Ouuun, que bonitinho, olha lá que lindo, menino... é um bebê. Muito lindo, moça. Tchau, gente, vão com Deus, viu!?
Com 72 anos a gente pode tudo.
Publicado originalmente aqui.
8 de janeiro de 2015
24 de dezembro de 2014
Indulto de Natal
Ficar nove horas aguardando seu ônibus na rodoviária numa antevéspera de Natal estimula a procura por meios para vencer o tédio. Talvez o mais antigo deles seja ouvir conversas alheias, tarefa a qual não me furto, curioso que sou.
Nesta terça-feira, 23, milhares de detentos foram beneficiados com o indulto de Natal e muitos estavam na Barra Funda para seguir viagem até seus familiares. Um grupo de quatro deles acabou se sentando nos bancos atrás de mim, no saguão em frente às bilheterias. Um tinha sapato que cobria os pés. Os outros três usavam chinelos de dedo.
Conversavam de tal forma que fui obrigado a pausar a música e, sorrateiramente ainda com o fone de ouvido, prestar atenção nas histórias.
Um deles não escondia a animação em poder rever a companheira (mulher, esposa, namorada ou amante). Comprou um cartão com 40 unidades e se esforçava para conseguir contatar a mulher, a fim de avisar que estava a caminho.
"Essa merda só dá indisponível", bateu o telefone público no gancho e chamou a atenção de todos ao redor, minha inclusive.
Quando conseguiu finalmente completar a ligação, não trocou duas palavras. "Amor, amor? Vou chegar 7h30 amor. Amor? Mas que merda".
Na tentativa seguinte foi mais feliz. Muito feliz. Sabe-se lá porque (por ansiedade, muito provavelmente) começaram a se atualizar das notícias ali mesmo e a decidir onde passariam o Natal. "Amor, você decide. Eu tô indo aí só pra te ver. Vou pra onde você quiser", sempre falando mais alto que o necessário, a não ser que fosse o necessário para que eu ouvisse. Nesse caso falava no tom ideal.
Gastou o primeiro cartão. Comprou outro. E outro. "Amor, eu já gastei três cartões com você, mas eu não consigo ficar sem ouvir a sua voz. Eu preciso te ouvir, amor". Cada cartão de 40 unidades custa R$ 7. Ele tinha, conforme disse na primeira ligação pra mulher, os R$ 200 enviados por ela, mas R$ 40 já tinham ido na van do presídio até à capital paulista. E agora R$ 21 nos cartões. Também ostentava um latão de Skol pra lá e pra cá, repartido com os outros três amigos.
Estavam em festa a bem da verdade.
As horas que antecederam a partida do ônibus deles devem ter sido as mais demoradas do ano. "Ah, já faltam 40 minutos? Não acredito. Daqui dez a gente desce pra embarcar, mano".
Nesses 10 um senhor baixinho, de bigode, com uma sacolinha da C&A e visivelmente desesperado entrou em cena. Ele não conseguia concluir uma ligação no telefone público e os quatros beneficiários do indulto, sentados ao lado, indicaram um pra ajudar o homem. "Vai lá ow, ajuda o tio, mano".
O tio, descobrimos todos depois, também estava de "saidinha", que é o termo usado por eles pro indulto. O tio, descobrimos também depois, estava numa situação de fato desesperadora.
Liberado do presídio de Avaré mais cedo, quando chegou em São Paulo e foi ate à casa da sua filha, descobriu que ela tinha se mudado. Sem o novo endereço nem algum contato de telefone, ele tentava avisar em Avaré da situação e que não conseguiria voltar hoje. Nem amanhã, nem no Natal. "A moça disse que só tem passagem pra lá dia 25 de janeiro". Respirava ofegante e estava sem saída. "Táxi até lá vai dar mil reais, eu não tenho. Não tenho quem me leve também. Vou ficar aqui na rodoviária até dia 05?" Dia 05 é quando eles precisam se reapresentar.
Um dos quatro primeiros detentos dissecava mais a história. "Mas o mano não avisou sua filha que tava vindo?". Ele disse que essa foi a primeira vez, em 13 anos, que havia sido beneficiado com o indulto e que a filha nunca tinha ido até Avaré fazer uma visita. "Queria chegar de surpresa mas ela se mudou".
O relógio marcava finalmente 1h. Os quatro deixaram o tio e desceram rumo à plataforma finalizando o latão de Skol e falando alto, num tom do nível da visivel felicidade deles.
Fiquei mais seis minutos, reparando na feição do tio. Era um desespero triste, uma tristeza desesperada. Quando eu pensava em alguma forma de ajudar, uma mulher que também deve ter ouvido tudo foi até ele e sugeriu que procurasse uma delegacia. Pode não ter sido a melhor ideia, mas não pude pensar em outras coisas.
Desci à plataforma. Os quatro e outros vários beneficiários do indulto se indignavam com o fato de àquela hora, 1h10, estar saindo o ônibus da 00h40. O deles era o da 1h30, assim como o meu.
Na linha seguinte, da 1h que acabou saindo às 2h, restaram alguns lugares e resolvi embarcar depois de nove horas na rodoviária.
Os quatro também tentaram, com o dono dos cartões telefônicos gastos com o "amor" como porta-voz.
- Ô motorista, não tem como a gente ir nesse dai também?
- Vocês estão em quantos?
- Quatro.
- Agora já embarcaram dois, cabem mais dois só. Querem dividir?
- Não, tudo bem, a gente espera o nosso.
- Ok.
- Feliz Natal, motorista.
Publicado originalmente aqui.
Nesta terça-feira, 23, milhares de detentos foram beneficiados com o indulto de Natal e muitos estavam na Barra Funda para seguir viagem até seus familiares. Um grupo de quatro deles acabou se sentando nos bancos atrás de mim, no saguão em frente às bilheterias. Um tinha sapato que cobria os pés. Os outros três usavam chinelos de dedo.
Conversavam de tal forma que fui obrigado a pausar a música e, sorrateiramente ainda com o fone de ouvido, prestar atenção nas histórias.
Um deles não escondia a animação em poder rever a companheira (mulher, esposa, namorada ou amante). Comprou um cartão com 40 unidades e se esforçava para conseguir contatar a mulher, a fim de avisar que estava a caminho.
"Essa merda só dá indisponível", bateu o telefone público no gancho e chamou a atenção de todos ao redor, minha inclusive.
Quando conseguiu finalmente completar a ligação, não trocou duas palavras. "Amor, amor? Vou chegar 7h30 amor. Amor? Mas que merda".
Na tentativa seguinte foi mais feliz. Muito feliz. Sabe-se lá porque (por ansiedade, muito provavelmente) começaram a se atualizar das notícias ali mesmo e a decidir onde passariam o Natal. "Amor, você decide. Eu tô indo aí só pra te ver. Vou pra onde você quiser", sempre falando mais alto que o necessário, a não ser que fosse o necessário para que eu ouvisse. Nesse caso falava no tom ideal.
Gastou o primeiro cartão. Comprou outro. E outro. "Amor, eu já gastei três cartões com você, mas eu não consigo ficar sem ouvir a sua voz. Eu preciso te ouvir, amor". Cada cartão de 40 unidades custa R$ 7. Ele tinha, conforme disse na primeira ligação pra mulher, os R$ 200 enviados por ela, mas R$ 40 já tinham ido na van do presídio até à capital paulista. E agora R$ 21 nos cartões. Também ostentava um latão de Skol pra lá e pra cá, repartido com os outros três amigos.
Estavam em festa a bem da verdade.
As horas que antecederam a partida do ônibus deles devem ter sido as mais demoradas do ano. "Ah, já faltam 40 minutos? Não acredito. Daqui dez a gente desce pra embarcar, mano".
Nesses 10 um senhor baixinho, de bigode, com uma sacolinha da C&A e visivelmente desesperado entrou em cena. Ele não conseguia concluir uma ligação no telefone público e os quatros beneficiários do indulto, sentados ao lado, indicaram um pra ajudar o homem. "Vai lá ow, ajuda o tio, mano".
O tio, descobrimos todos depois, também estava de "saidinha", que é o termo usado por eles pro indulto. O tio, descobrimos também depois, estava numa situação de fato desesperadora.
Liberado do presídio de Avaré mais cedo, quando chegou em São Paulo e foi ate à casa da sua filha, descobriu que ela tinha se mudado. Sem o novo endereço nem algum contato de telefone, ele tentava avisar em Avaré da situação e que não conseguiria voltar hoje. Nem amanhã, nem no Natal. "A moça disse que só tem passagem pra lá dia 25 de janeiro". Respirava ofegante e estava sem saída. "Táxi até lá vai dar mil reais, eu não tenho. Não tenho quem me leve também. Vou ficar aqui na rodoviária até dia 05?" Dia 05 é quando eles precisam se reapresentar.
Um dos quatro primeiros detentos dissecava mais a história. "Mas o mano não avisou sua filha que tava vindo?". Ele disse que essa foi a primeira vez, em 13 anos, que havia sido beneficiado com o indulto e que a filha nunca tinha ido até Avaré fazer uma visita. "Queria chegar de surpresa mas ela se mudou".
O relógio marcava finalmente 1h. Os quatro deixaram o tio e desceram rumo à plataforma finalizando o latão de Skol e falando alto, num tom do nível da visivel felicidade deles.
Fiquei mais seis minutos, reparando na feição do tio. Era um desespero triste, uma tristeza desesperada. Quando eu pensava em alguma forma de ajudar, uma mulher que também deve ter ouvido tudo foi até ele e sugeriu que procurasse uma delegacia. Pode não ter sido a melhor ideia, mas não pude pensar em outras coisas.
Desci à plataforma. Os quatro e outros vários beneficiários do indulto se indignavam com o fato de àquela hora, 1h10, estar saindo o ônibus da 00h40. O deles era o da 1h30, assim como o meu.
Na linha seguinte, da 1h que acabou saindo às 2h, restaram alguns lugares e resolvi embarcar depois de nove horas na rodoviária.
Os quatro também tentaram, com o dono dos cartões telefônicos gastos com o "amor" como porta-voz.
- Ô motorista, não tem como a gente ir nesse dai também?
- Vocês estão em quantos?
- Quatro.
- Agora já embarcaram dois, cabem mais dois só. Querem dividir?
- Não, tudo bem, a gente espera o nosso.
- Ok.
- Feliz Natal, motorista.
Publicado originalmente aqui.
22 de dezembro de 2014
Parece futurístico mas é semana que vem
Era algum ano entre 2009 e 2011. Talvez 2010. Quase certo que 2010. Entrevista de emprego em forma de dinâmica de grupo para uma vaga bastante disputada de estágio em uma famosa emissora de TV. Ao passo em que os candidatos se ajeitavam, a responsável do recursos humanos ditava as regras da primeira etapa do processo. Ela chamaria um a um até sua mesa e faria apenas uma pergunta. No começo achei que seriam diferentes indagações; depois, no café do intervalo, descobri que todos respondemos ao mesmo questionamento.
Esperava algo relacionado ao jornalismo ou uma daquelas perguntas típicas de RH. Que bicho você seria? Um leão. Por quê? Porque ele é o rei da selva e eu tenho espírito empreendedor. Ok, obrigado. Próximo.
Mas não. Fui surpreendido.
Como você espera estar em 2015?
Quebrou minhas pernas, lógico. Não que eu não tivesse uma resposta espontânea na ponta da língua, mas qualquer coisa que saísse (e saiu) seria clichê e estúpida. Espero estar vivo. Trabalhando. Estável financeiramente. Ser reconhecido pelo meu trabalho. Espero não estar em dinâmicas de grupo respondendo a questões existenciais sobre pretensões para o futuro.
Me parecia tão distante (e é) imaginar como estaria eu e o mundo dali 4, 5 ou 6 anos. Pior, o ano de 2015, só ele, me soava como futurístico. Não só quando a moça repetiu uma vez mais a única questão do dia. Desde muito tempo o número me conecta ao futuro.
Em 2015 carros voarão, refeições virão em cápsulas e seremos capazes de ler obras literárias inteiras em segundos.
Em 2015 respiraremos com máscaras de oxigênio, nuvens de poeira tomarão os horizontes das metrópoles e haverá falta d’água. Haverá...
2015 ainda poderia muito bem ter sido, bem antes de 2015, claro, título de longa de ficção científica do Kubrick ou de filme-catástrofe (nesse, com direito a tragédia no roteiro e nas bilheterias, muito provavelmente).
Não bastasse essa profusão de hipóteses, agora, devido a um tal de calendário gregoriano, me peguei imaginando tudo isso que alguma vez passou pela minha cabeça ser 2015 bater assim, sorrateiramente, como quem não quer nada, à minha porta. Prometendo sem acontecer. Acontecendo sem prometer.
Sim, me parecia futurístico mas é semana que vem
E agora, o que fazer? O que pensar? Ou, como indagaria a robótica moça graduada em recursos humanos: o que esperar em 2015?
Era tão futurístico que desacreditei nele chegando ou em mim chegando nele.
A única programação que [não] fiz diz respeito à pilha de livros que me aguardou à míngua durante todo o ano: eu tinha a esperança de que em 2015 a devoraria em dois quartos de hora, por isso só fazia me poupar. É, quem sabe em alguns dias não legitimam o soar futurístico do ano e nos brindam com um Google Glass 2.0 de leitura ultrarrápida.
Fora isso, as demais ilusões de futuro ao que tudo indica ficarão, bem... Pro futuro. 2038 talvez.
Porque 2015 é agora.
Publicado originalmente aqui.
Esperava algo relacionado ao jornalismo ou uma daquelas perguntas típicas de RH. Que bicho você seria? Um leão. Por quê? Porque ele é o rei da selva e eu tenho espírito empreendedor. Ok, obrigado. Próximo.
Mas não. Fui surpreendido.
Como você espera estar em 2015?
Quebrou minhas pernas, lógico. Não que eu não tivesse uma resposta espontânea na ponta da língua, mas qualquer coisa que saísse (e saiu) seria clichê e estúpida. Espero estar vivo. Trabalhando. Estável financeiramente. Ser reconhecido pelo meu trabalho. Espero não estar em dinâmicas de grupo respondendo a questões existenciais sobre pretensões para o futuro.
Me parecia tão distante (e é) imaginar como estaria eu e o mundo dali 4, 5 ou 6 anos. Pior, o ano de 2015, só ele, me soava como futurístico. Não só quando a moça repetiu uma vez mais a única questão do dia. Desde muito tempo o número me conecta ao futuro.
Em 2015 carros voarão, refeições virão em cápsulas e seremos capazes de ler obras literárias inteiras em segundos.
Em 2015 respiraremos com máscaras de oxigênio, nuvens de poeira tomarão os horizontes das metrópoles e haverá falta d’água. Haverá...
2015 ainda poderia muito bem ter sido, bem antes de 2015, claro, título de longa de ficção científica do Kubrick ou de filme-catástrofe (nesse, com direito a tragédia no roteiro e nas bilheterias, muito provavelmente).
Não bastasse essa profusão de hipóteses, agora, devido a um tal de calendário gregoriano, me peguei imaginando tudo isso que alguma vez passou pela minha cabeça ser 2015 bater assim, sorrateiramente, como quem não quer nada, à minha porta. Prometendo sem acontecer. Acontecendo sem prometer.
Sim, me parecia futurístico mas é semana que vem
E agora, o que fazer? O que pensar? Ou, como indagaria a robótica moça graduada em recursos humanos: o que esperar em 2015?
Era tão futurístico que desacreditei nele chegando ou em mim chegando nele.
A única programação que [não] fiz diz respeito à pilha de livros que me aguardou à míngua durante todo o ano: eu tinha a esperança de que em 2015 a devoraria em dois quartos de hora, por isso só fazia me poupar. É, quem sabe em alguns dias não legitimam o soar futurístico do ano e nos brindam com um Google Glass 2.0 de leitura ultrarrápida.
Fora isso, as demais ilusões de futuro ao que tudo indica ficarão, bem... Pro futuro. 2038 talvez.
Porque 2015 é agora.
Publicado originalmente aqui.
23 de setembro de 2014
Automático
Hoje, depois de um ano e meio morando nessa cidade, acabei pegando o metrô errado na volta pra casa.
Quando me dei conta, na estação seguinte a que eu embarquei, de que estava indo em sentido contrário fiquei, obviamente, com raiva. "Vou perder tempo, ter que voltar, puta que pariu", pensei. Devo ter expressado várias caras de frustração no trem.
Não bastasse isso, não consegui descer na estação seguinte. Muita gente entrando, uma moça com a perna engessada impedindo transversalmente o fluxo... A porta fechou. E eu fiquei para dentro. De novo. Do trem. No sentido contrário ao da minha casa. Às dez da noite. "Lerdo". As expressões faciais de raiva devem ter ficado fora do controle.
Aí, de repente, levantei a cabeça e uma senhora de óculos, com uma camiseta de candidato a deputado, uma bolsa grande (caberia por certo minha cara de tacho) e uma experiência de vida algumas dezenas de vezes maior que a minha sorria de canto de boca. Não pra mim. De mim. Das minhas reações.
Desarmado, não tive o que fazer: sorri de volta. E ri de mim.
Quando me dei conta, na estação seguinte a que eu embarquei, de que estava indo em sentido contrário fiquei, obviamente, com raiva. "Vou perder tempo, ter que voltar, puta que pariu", pensei. Devo ter expressado várias caras de frustração no trem.
Não bastasse isso, não consegui descer na estação seguinte. Muita gente entrando, uma moça com a perna engessada impedindo transversalmente o fluxo... A porta fechou. E eu fiquei para dentro. De novo. Do trem. No sentido contrário ao da minha casa. Às dez da noite. "Lerdo". As expressões faciais de raiva devem ter ficado fora do controle.
Aí, de repente, levantei a cabeça e uma senhora de óculos, com uma camiseta de candidato a deputado, uma bolsa grande (caberia por certo minha cara de tacho) e uma experiência de vida algumas dezenas de vezes maior que a minha sorria de canto de boca. Não pra mim. De mim. Das minhas reações.
Desarmado, não tive o que fazer: sorri de volta. E ri de mim.
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21 de setembro de 2014
Emissário de segunda
Dormi sábado
Acordei domingo
Faltou justiça
À ordem de transposição dos dias
Às onze de ontem
Um aceno à felicidade
Às quatro de hoje
Não há luz que acenda essa cidade
O elo que por hoje liga a nuvem ao chão
E transforma o céu em imensa escuridão
Ajuda a entender porque a vida dominga
Pras bandas de cá molenga, capenga, sem ginga
Minguou o dia
Nascido desde sempre tocaiado
À espera de que algo o denomine
Que revolucione o pacato caminho do gado
Se sábado fosse
Que dia teria a sexta
Pior, que dia carregaria a pecha
De apenas anteceder
Seu mal é o amanhã
Que pra uns inspira, incentiva, angustia
Outros, então, entedia
Promessa, talvez, vazia
Acordei domingo
Faltou justiça
À ordem de transposição dos dias
Às onze de ontem
Um aceno à felicidade
Às quatro de hoje
Não há luz que acenda essa cidade
O elo que por hoje liga a nuvem ao chão
E transforma o céu em imensa escuridão
Ajuda a entender porque a vida dominga
Pras bandas de cá molenga, capenga, sem ginga
Minguou o dia
Nascido desde sempre tocaiado
À espera de que algo o denomine
Que revolucione o pacato caminho do gado
Se sábado fosse
Que dia teria a sexta
Pior, que dia carregaria a pecha
De apenas anteceder
Seu mal é o amanhã
Que pra uns inspira, incentiva, angustia
Outros, então, entedia
Promessa, talvez, vazia
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19 de setembro de 2014
Saudade
Saudade traz consigo solidão
Resultado de uma paixão que teima em ficar
Quando o adorado já não fica mais
Saudade é apego: a um passado que não passa
A um presente descontente
E um futuro inexistente
Saudosos forjam sentimentos: eles não existem mais
De ambos os lados, não
Quem tem saudade tem porque perdeu
Sofre para além dele
Mas a dor, essa é nele
Saudade não se deseja, se tem, se sofre, se supera
Não, saudade não se supera
Se diminui, exaspera, transfere
Saudade é, por fim, lembrança
Do cheiro
Do fungado
Da boca
Da pele
Do pensamento
Da vida sua, nossa
Resultado de uma paixão que teima em ficar
Quando o adorado já não fica mais
Saudade é apego: a um passado que não passa
A um presente descontente
E um futuro inexistente
Saudosos forjam sentimentos: eles não existem mais
De ambos os lados, não
Quem tem saudade tem porque perdeu
Sofre para além dele
Mas a dor, essa é nele
Saudade não se deseja, se tem, se sofre, se supera
Não, saudade não se supera
Se diminui, exaspera, transfere
Saudade é, por fim, lembrança
Do cheiro
Do fungado
Da boca
Da pele
Do pensamento
Da vida sua, nossa
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15 de setembro de 2014
A recondução da arte a lugares inusitados
Durante muito tempo os espaços aonde a arte se faz presente
foram de certa forma delimitados e consagrados por aqueles que se interessam
pelo assunto. Em sua maioria os museus, instituições privadas e sem fins
lucrativos, acabaram se tornando o ponto de encontro natural de exposições, efêmeras
ou mais duradouras, das mais variadas expressões artísticas. Esse cenário,
porém, vem sofrendo certa mutação graças ao avanço da arte de rua, exposta em
espaços públicos e, mais recentemente, à invasão criativa feita por variados
artistas em locais privados, com destaque para o antigo Hospital Matarazzo, em
São Paulo e para a Fábrica Bhering, no Rio de Janeiro.
Não se trata de tomadas itinerantes que perpassam vários
lugares, dentre os citados acima. São exibições pensadas para esses lugares,
cujas limitações físicas e arquitetônicas precisam se encaixar no projeto
artístico do local.
Foi assim com o prédio de 1904, na altura do número 190 da
Rua Rio Claro, próximo à Avenida Paulista, em São Paulo. Após 20 anos de
silêncio, o antigo Hospital Umberto Primo – hoje Cidade Matarazzo – abriu suas
portas para a efervescência artística de mais de 100 autores brasileiros e
estrangeiros, que se dispuseram voluntariamente ao projeto.
“Há sete anos procuro um lugar como este. Queria um lugar
onde todos na cidade pudessem se expressar. Isto que está aqui é um movimento,
um processo dinâmico, porque tudo o que você vê aqui vai desaparecer”, detalha
Alexandre Allard, idealizador da exposição.
O objetivo integrador do Cidade Matarazzo é fomentado também
pelo curador, Marc Pottier. “Temos muitas obras que são como um diálogo com o
espaço”, afirma. A tal comunicação se dá de maneira muito óbvia em certos
momentos (como nos raios-x de duas colunas cervicais, fazendo clara alusão aos
tempos remotos de consultório clínico do Matarazzo) e não tão clara em outros
(a frase “Havia mais futuro no passado”, cravada em uma das paredes sujas do
local é um convite à reflexão).
Se o Cidade Matarazzo contempla momentaneamente a arte de
uma centena de criadores, a Fábrica Bhering, no Rio de Janeiro, é um espaço coletivo
transformado definitivamente em point artístico. Há décadas atrás toneladas de
chocolate e balas eram produzidas no local. Hoje, o inusitado novo uso que se
dá aos cômodos dos seus 16 mil m² parece ter atingido seu ápice criativo e de
interação: desde agosto os visitantes podem conferir os 80 ateliês do local
todo primeiro sábado do mês, com direito a um café bastante aconchegante.
A Bhering já era conhecida entre os amantes desses espaços
por fazer, esporadicamente, eventos abertos ao público. Esses momentos traziam
os moradores de morros próximos ao Santo Cristo, local da antiga Fábrica, ao
encontro da pintura, da arte plástica, cenografia, moda etc. As comunidades do
Pinto e da Providência já são frequentadoras do local, contrariando certa lógica
elitista da arte museológica, que por vezes não está acessível financeiramente
ao morador do morro – ou não o deixa à vontade para frequentá-la.
A mostra do Cidade Matarazzo, que termina no próximo dia 12
de outubro, não parece ser o ponto final da revitalização. A intenção dos
colaboradores é transformar o local num ponto definitivo e alternativo de
confluência artística da cidade, assim como caminha para ser a Fábrica Bhering
no Rio.
Ver a arte sendo reconduzida para tais espaços pouco
convencionais de exposição gera a expectativa de vê-la atingindo cada vez mais
quem não está habituado com tais criações – muitas vezes, por motivos que fogem
ao simples desinteresse. A popularização da arte, pauta tão cobrada pelos
movimentos sociais, pode estar justamente nessa invasão criativa de locais
abandonados e que naturalmente são propícios para a montagem, exibição e
consagração das mais variadas obras artísticas.
MADE BY... FEITO POR BRASILEIROS
Onde? Cidade Matarazzo - al. Rio Claro, 190, Bela Vista, região central
Quando? De 9/9 a 12/10, terça a domingo, das 10h às 17h
Quanto? Gratuito
GALERIA BHERING
Onde? Endereço: Rua Orestes, 28 - Santo Cristo - Telefone: (21) 2223-2477
Quando? Todo primeiro sábado do mês.
Quanto? Gratuito
MADE BY... FEITO POR BRASILEIROS
Onde? Cidade Matarazzo - al. Rio Claro, 190, Bela Vista, região central
Quando? De 9/9 a 12/10, terça a domingo, das 10h às 17h
Quanto? Gratuito
GALERIA BHERING
Onde? Endereço: Rua Orestes, 28 - Santo Cristo - Telefone: (21) 2223-2477
Quando? Todo primeiro sábado do mês.
Quanto? Gratuito
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#arte #crítica #museus
6 de setembro de 2014
Última frase com amor
Não há mais o que se falar sobre amor
A não ser que
Falemos da empatia
Coirmã
Não há mais o que se falar da empatia
A não ser que
Falemos da saudade
Viúva
Não há mais o que se falar da saudade
A não ser que
Falemos da lembrança
Madrasta
Não há mais o que se falar da lembrança
A não ser que
Falemos da carência
Tia-avó
Dela, então
Põe tudo abaixo
Confunde, manipula, embaralha, desorienta
Engana as ideias
Por querer
Para se ver preenchida
Justificada
Concreta
Triunfante
Não há mais o que se falar da carência
A não ser que
Falemos da empatia
Coirmã
Não há mais o que se falar da empatia
A não ser que
Falemos da saudade
Viúva
Não há mais o que se falar da saudade
A não ser que
Falemos da lembrança
Madrasta
Não há mais o que se falar da lembrança
A não ser que
Falemos da carência
Tia-avó
Dela, então
Põe tudo abaixo
Confunde, manipula, embaralha, desorienta
Engana as ideias
Por querer
Para se ver preenchida
Justificada
Concreta
Triunfante
Não há mais o que se falar da carência
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30 de agosto de 2014
Estalo
Qual barulho produz um estalo
Que não aquele que se ouve
Quando os dedos brigam de galo
T R Á: dois dedos se batem, e vai um pra cada lado
Quanto tempo dura um estalo
Quando se tocam
E vai dedo pra cá dedo pra lá
Leva menos tempo que o tempo que se leva pra escrever tempo
O que fica depois de um estalo
Logo depois é o seguinte
Um dedo sobe
E o outro dedo: pá, desce
Quem é o responsável pelo estalo
Os dedos, a mão, o homem
O ar, que propaga
Isso mesmo, ninguém
Para quê um estalo
É rápido, torna atento, parece conveniente
Não é, vem do nada, destrói a barreira do silêncio
Mas ah, é eficiente
E porque é que um estalo machuca
Engano, o pobre não faz doer
É, rateia a culpa
Entre os dedos, a mão, o homem e o ar
Combinemos: não gosto
É tanto o que se perde num estalo
Gente, amores
Que eu penso: e se a gente fizer um abaixo-assinado contra o estalo?
Que não aquele que se ouve
Quando os dedos brigam de galo
T R Á: dois dedos se batem, e vai um pra cada lado
Quanto tempo dura um estalo
Quando se tocam
E vai dedo pra cá dedo pra lá
Leva menos tempo que o tempo que se leva pra escrever tempo
O que fica depois de um estalo
Logo depois é o seguinte
Um dedo sobe
E o outro dedo: pá, desce
Quem é o responsável pelo estalo
Os dedos, a mão, o homem
O ar, que propaga
Isso mesmo, ninguém
Para quê um estalo
É rápido, torna atento, parece conveniente
Não é, vem do nada, destrói a barreira do silêncio
Mas ah, é eficiente
E porque é que um estalo machuca
Engano, o pobre não faz doer
É, rateia a culpa
Entre os dedos, a mão, o homem e o ar
Combinemos: não gosto
É tanto o que se perde num estalo
Gente, amores
Que eu penso: e se a gente fizer um abaixo-assinado contra o estalo?
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23 de maio de 2014
Fotografias de uma realidade melancólica
Uma fotografia viva da realidade. Um homem sem corpo, cuja
idade já transpassou a marca dos quarenta, com o rosto indiferente ao seu
exterior: olhos fechados, boca cerrada e sobrancelhas e barba por fazer. Ao seu
redor, uma multidão se aglomera no limite da faixa de segurança para, em sua
maioria, apenas fotografar Ron Mueck, expresso nessa escultura, que toma o
posto de mais impactante: “Mask II”.
Em exposição no Museu de Arte Moderna (MAM) até 1º de junho,
no Rio de Janeiro, essa e outras obras hiper-realistas em tamanho gigante do
artista australiano estão quebrando todas as expectativas. Até ontem (22), mais
de 210 mil pessoas já haviam passado pelas nove esculturas nos pátios do MAM.
A grandiosidade e o realismo exacerbado visto em Ron Mueck
ajudam a explicar o sucesso da exposição, consagrada também em outros países,
como Austrália, Nova Zelândia e, recentemente, na Argentina. É possível sem nenhum
esforço se ver na obra, como na figura de um casal de idosos, na praia, debaixo
de um guarda-chuva – “Couple under an umbrella”.
Um dos curadores quando as esculturas estiveram na Nova
Zelândia, Justin Paton explica o sentido metafórico da posição que o casal
monta juntos. “Representa o desapego no sentido mais positivo do verbo ‘sustentar’:
manter alguém com força, mantê-lo por toda a
vida, manter um momento de vida frente ao fluxo do tempo”, conta.
De fato a mulher com as mãos segurando o chão, atrás de suas
costas, sentada de tal modo para que o homem apenas recoste sua cabeça sobre
suas pernas é a representação dessa sustentação de que Paton trata. Já seria
naturalmente encantador não fosse ainda o olhar que a sustentadora dá ao
sustentado, sem obter deste reciprocidade. Ou o movimento de seus cabelos,
captado como num obturador fotográfico, as veias saltantes e os dedos da mão
inchados, os quais justificam ainda mais a ideia de fotografia máxima da
realidade.
Como se estivéssemos depostos, sem autonomia alguma sobre
nossa percepção, frente à obra que maximiza nós mesmos, pensamos a obra de Ron
Mueck como um reflexo. Ou apenas fotografamos.
Surpreendem os flashs ininterruptos das câmeras digitais e
dos smartphones. Chegam a incomodar se o visitante quer dedicar o tempo que seu
bom senso permite ficar frente à obra apenas a contemplando.
Nesse sentido, a contemplação não está diametralmente ligada
ao gigantismo dos corpos de Ron Mueck. Se as duas esculturas antes descritas
impressionam também pelo tamanho agigantado, a contraposição de outras menores
até que nosso tamanho real se mostra bastante eficiente. É como se alternássemos
de uma visão maximizada de nós mesmos para outra pormenorizada, ambas com
riqueza de detalhes.
A escala das obras, para alguns, porém, é o que menos
importa. A melancolia em retratar rostos e corpos indiferentes aos visitantes,
perenes em sua plenitude e serenos na catástrofe de suas existências é o que
importaria do ponto de vista artístico.
De toda forma, é impossível se despir dos pudores da mente
quando se está de frente de si mesmo, menor ou maior fisicamente, mas com semelhante
apatia, injustificada, de sentimentos. As fotografias de Ron Mueck dialogam
porque não com o pai da psicanálise, que justificava a melancolia em sua
ausência de justificativas, seu luto sem perda.
RON MUECK
Quando? De terça a sexta, das 12h às 18h; sábado e domingo, das 11h às 19h; até 1º/6
Onde? Museu de Arte Moderna do Rio, av. Infante Dom Henrique, 85, Rio, tel. (21) 3883-5600
Quanto? R$ 14
RON MUECK
Quando? De terça a sexta, das 12h às 18h; sábado e domingo, das 11h às 19h; até 1º/6
Onde? Museu de Arte Moderna do Rio, av. Infante Dom Henrique, 85, Rio, tel. (21) 3883-5600
Quanto? R$ 14
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#crítica #arte #RonMueck
14 de maio de 2014
Mors
Corre
Olha; não pisca
Duas rodas próximas
O medo mais ainda
Dos pixels à rotina
Descamisada
Quando cheguei nada entendi
Agora vou à padaria, escolho, pago, trago aqui
Trago o cigarro-relógio
Explico:
Quando ele acaba, acaba eu
E no lugar do visor, breu
Meu mosteiro foi efêmero
Entrei, entendi, rezei nele todo por um tempo mas saí
O purgatório, duradouro, ah, me tira sarro
Acaba hoje, amanhã, junho, julho, junto com o cigarro
Findam contentes ele e eu e o resto num desaprumo
Não consegue ver o fim do fumo
O resto fica, sofre, agita
Até que Ela, preterida, visita
Olha; não pisca
Duas rodas próximas
O medo mais ainda
Dos pixels à rotina
Descamisada
Quando cheguei nada entendi
Agora vou à padaria, escolho, pago, trago aqui
Trago o cigarro-relógio
Explico:
Quando ele acaba, acaba eu
E no lugar do visor, breu
Meu mosteiro foi efêmero
Entrei, entendi, rezei nele todo por um tempo mas saí
O purgatório, duradouro, ah, me tira sarro
Acaba hoje, amanhã, junho, julho, junto com o cigarro
Findam contentes ele e eu e o resto num desaprumo
Não consegue ver o fim do fumo
O resto fica, sofre, agita
Até que Ela, preterida, visita
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4 de maio de 2014
Catarina
À minha mãe
Teve esperados nove meses
A mim
Teve esperados 28 anos
Eu?
Dei sorte, não a esperei
Revelou-se desde o zero
Com uma manta, um óculos de grau experiente, daquele magrelo
A cada aniversário, um bolo
Diferentes bolos
Guaranás iguais, com vestes de papel cuja pretensão de enfeitar era
Uma pretensão
Aos domingos, me levava ao toboágua
Na infância
Porque hoje, hoje tem outras coisas
Não hoje de hoje, hoje desde mais de década
Que eu não vou ao toboágua
Eu vou na casa dela
Cear a comida dela
Cessar a saudade dela
Já quase me matou várias vezes
De medo
Por ameaçar viajar
Tão, tão cedo
Aí eu sofro duma ausência ainda inexistente
Adianto autoflagelo
Porque quando o tempo chegar, certamente
Haverei de querer lembrar momentos; um, singelo:
Baile de formatura
Me viro, percebo uma dupla de janelas marejada
O que foi, Vó? Ouso
Nada, filho; a Vó tá só emocionada.
Teve esperados nove meses
A mim
Teve esperados 28 anos
Eu?
Dei sorte, não a esperei
Revelou-se desde o zero
Com uma manta, um óculos de grau experiente, daquele magrelo
A cada aniversário, um bolo
Diferentes bolos
Guaranás iguais, com vestes de papel cuja pretensão de enfeitar era
Uma pretensão
Aos domingos, me levava ao toboágua
Na infância
Porque hoje, hoje tem outras coisas
Não hoje de hoje, hoje desde mais de década
Que eu não vou ao toboágua
Eu vou na casa dela
Cear a comida dela
Cessar a saudade dela
Já quase me matou várias vezes
De medo
Por ameaçar viajar
Tão, tão cedo
Aí eu sofro duma ausência ainda inexistente
Adianto autoflagelo
Porque quando o tempo chegar, certamente
Haverei de querer lembrar momentos; um, singelo:
Baile de formatura
Me viro, percebo uma dupla de janelas marejada
O que foi, Vó? Ouso
Nada, filho; a Vó tá só emocionada.
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28 de novembro de 2013
Crença na descrença
Nasce-se crente
E a descrença de quem crê é ilusão
Não se iluda, então
Crer no copo cheio de antemão
As pessoas às pessoas, tudo
Se faz o bem, faz-se o bem
Se faz o mal, faz-se o mal?
De onde vem o mal?
Nasce-se bom
E a crença na bondade é ilusão
Não me iludo, então
Bom que se crê, maldição
Ao homem corrompido, meu pesar
Apesar que há de se escolher
Entre o bom, o mau, creio eu
Creio tu, creio ele, creio vós; creio em nós
Creio mais não
De tanto crer, cresci
Mas não como a soberba criança
Que pra crescer sobe no muro
Muro alto, alto, bem alto
Olha! Sou mais alto que o senhor, senhor
Está acima de mim, sim
E vai viver aí? Nesse horror?
Altura plástica, artificiosa
Induzida, sem labor
E a descrença de quem crê é ilusão
Não se iluda, então
Crer no copo cheio de antemão
As pessoas às pessoas, tudo
Se faz o bem, faz-se o bem
Se faz o mal, faz-se o mal?
De onde vem o mal?
Nasce-se bom
E a crença na bondade é ilusão
Não me iludo, então
Bom que se crê, maldição
Ao homem corrompido, meu pesar
Apesar que há de se escolher
Entre o bom, o mau, creio eu
Creio tu, creio ele, creio vós; creio em nós
Creio mais não
De tanto crer, cresci
Mas não como a soberba criança
Que pra crescer sobe no muro
Muro alto, alto, bem alto
Olha! Sou mais alto que o senhor, senhor
Está acima de mim, sim
E vai viver aí? Nesse horror?
Altura plástica, artificiosa
Induzida, sem labor
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2 de novembro de 2013
As palestras desmotivacionais de Clécio
- Há quem diga que o otimismo é a chave da conquista. Pois eu digo que não há no mundo alguém que tenha conseguido algo só mantendo uma ideia positiva sobre determinado objetivo. A chave para o triunfo é se desmotivar quanto a ele. Vocês aqui presentes não irão passar na faculdade, crianças. Talvez alguns passem, mas só talvez. E se alguém de vocês passar, terá um péssimo caminho a ser trilhado. Caminho esse que não levará a nenhum futuro brilhante. Não haverão empregos que compensarão os dias perdidos estudando sob a perspectiva da expectativa. Recompor-se também não está no script. Vocês precisam se desmotivar e eu estou aqui para ajuda-los nisso, mas não vou conseguir - apresentava-se Clécio.
O futuro a Deus pertence. Mas Clécio sabia prever uma parte genérica do que seria o porvir: um completo fracasso. E essa era a arma do palestrante nas suas apresentações em auditórios geralmente lotados em colégios particulares de São Paulo. O público era quase sempre composto de jovens de 16 ou 17 anos, todos sob a pressão de conseguir uma vaga em alguma faculdade renomada. O papel do convidado era de, visivelmente, tirar dos garotos qualquer tendência a ver as coisas de forma positiva. Assim, despretensiosos, acabavam involuntariamente distensionados.
Clécio não se importava com as críticas que jornalistas andavam fazendo sobre ele em suas perniciosas colunas, diariamente. Havia quem argumentava com a psicologia, dizendo que uma vez pessimistas, os garotos se desiludiriam e se desmotivariam inclusive quanto a suas carreiras, suas vidas. Mas que carreiras? Rebatia Clécio, quando sua mulher mostrava os artigos dos jornais. Eles não vão chegar a ter essa perspectiva.
Aquilo não era um personagem construído para as palestras. Clécio era realmente o paladino do pessimismo. Casado e pai de dois filhos (os quais ele não acreditava serem seus), sobrevivia do dinheiro ganho com as apresentações nas escolas. Mas nem com a fama do boca a boca ele conseguia aumentar seu rol de colégios. Marketing pessoal não era seu forte; ao se apresentar àqueles diretores que exigiam conversar com ele antes de expor seus alunos à palestra, fazia o oposto à autopromoção. Sou péssimo com palestras, não lido bem com público e eles dificilmente conseguirão aliviar o peso da pressão do vestibular.
Clécio defendia o pessimismo. Mas não achava ele bom. Afinal de contas, acreditar friamente que o pessimismo evita frustrações é, de certa forma, ser otimista. Era difícil manter uma linha totalmente coerente. Por isso as perguntas dos alunos só duraram nas primeiras palestras, até que João Victor, potencial engenheiro da Petrobrás daqui uma década, levantou-se para dizer que sua mãe sempre o incentivara a acreditar em si mesmo, a ser positivo quanto ao futuro que o esperava. João dizia que sua mãe, um case de sucesso, sempre fora assim e hoje alçava voos cada vez mais altos. Quem é sua mãe, rapaz? Graça Foster, doutor Clécio.
Com o tempo, as coisas na vida de Clécio continuaram se mostrando monótonas, inertes. Nada mudava, tudo dentro dos conformes. Sem decepção, sem ovação. Aliás, não mencionei, mas Clécio pedia antes de suas palestras que os professores avisassem aos alunos para não baterem palmas. Não sei o que sou capaz de fazer se aplaudirem.
Porém a carreira de palestrante estava prestes a acabar (ele nunca achou que seria duradoura, diga-se). Um jornalista, daqueles maldosos, associou o suicídio de um aluno à palestra de Clécio. Era verdade que o rapaz, de 16 anos, havia acompanhado a palestra no dia anterior à morte. E que tinha comentado com amigos que agora tudo fazia sentido. Nada faz sentido.
Clécio ficou bastante abalado e decidiu, por um tempo, parar com as idas às escolas. Não tardou foi convidado a voltar a ativa. Clécio agora palestra em concursos de beleza.
Clécio não se importava com as críticas que jornalistas andavam fazendo sobre ele em suas perniciosas colunas, diariamente. Havia quem argumentava com a psicologia, dizendo que uma vez pessimistas, os garotos se desiludiriam e se desmotivariam inclusive quanto a suas carreiras, suas vidas. Mas que carreiras? Rebatia Clécio, quando sua mulher mostrava os artigos dos jornais. Eles não vão chegar a ter essa perspectiva.
Aquilo não era um personagem construído para as palestras. Clécio era realmente o paladino do pessimismo. Casado e pai de dois filhos (os quais ele não acreditava serem seus), sobrevivia do dinheiro ganho com as apresentações nas escolas. Mas nem com a fama do boca a boca ele conseguia aumentar seu rol de colégios. Marketing pessoal não era seu forte; ao se apresentar àqueles diretores que exigiam conversar com ele antes de expor seus alunos à palestra, fazia o oposto à autopromoção. Sou péssimo com palestras, não lido bem com público e eles dificilmente conseguirão aliviar o peso da pressão do vestibular.
Clécio defendia o pessimismo. Mas não achava ele bom. Afinal de contas, acreditar friamente que o pessimismo evita frustrações é, de certa forma, ser otimista. Era difícil manter uma linha totalmente coerente. Por isso as perguntas dos alunos só duraram nas primeiras palestras, até que João Victor, potencial engenheiro da Petrobrás daqui uma década, levantou-se para dizer que sua mãe sempre o incentivara a acreditar em si mesmo, a ser positivo quanto ao futuro que o esperava. João dizia que sua mãe, um case de sucesso, sempre fora assim e hoje alçava voos cada vez mais altos. Quem é sua mãe, rapaz? Graça Foster, doutor Clécio.
Com o tempo, as coisas na vida de Clécio continuaram se mostrando monótonas, inertes. Nada mudava, tudo dentro dos conformes. Sem decepção, sem ovação. Aliás, não mencionei, mas Clécio pedia antes de suas palestras que os professores avisassem aos alunos para não baterem palmas. Não sei o que sou capaz de fazer se aplaudirem.
Porém a carreira de palestrante estava prestes a acabar (ele nunca achou que seria duradoura, diga-se). Um jornalista, daqueles maldosos, associou o suicídio de um aluno à palestra de Clécio. Era verdade que o rapaz, de 16 anos, havia acompanhado a palestra no dia anterior à morte. E que tinha comentado com amigos que agora tudo fazia sentido. Nada faz sentido.
Clécio ficou bastante abalado e decidiu, por um tempo, parar com as idas às escolas. Não tardou foi convidado a voltar a ativa. Clécio agora palestra em concursos de beleza.
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conto
15 de agosto de 2013
Orgasmos clitorianos
Riso que se ri de verdade
Largo, o sorriso, de uma vez só
Porque seria covarde
Um riso ambíguo dá dó
Porque dá dó
Não há melhor
Melhor que ela
Sommelier
Veja bem, tinha sábado
No pão doce
Mas sábado cedo
Aquele cedo que dava medo
Ah! Sábado não, muitos
Reuniões soturnas
Cedo, à tarde, à noite
Como quem entra no açoite
O pensamento até se esvai
Frente à visão que me penetra
De um mundo notívago
Ah! Pensando bem, você e o mundo, assim; não
Mas la vie en rose seria bom, mademoiselle
Mais le son de ma voix, sei lá
Est-ce un rêve
Ou la réalité?
Ah! Sinatra acertar, ainda há de ter
Vinho, charme, français
Muitos sonhos
E open-admiração (minha)
‘Cause more
And more
And more, much more than this
You did it your way
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poesia
22 de julho de 2013
Esphera
Fui reportado à paciência
Do alto da sua calma
Que fizesse com ela
O que se faz com noss'alma
Espera a verdes mares
Vivencia novos ares
Mas no fundo, a via
Esperar é o que fazes
Por mim a via
Havia quem quisesse
Que tomasse outro caminho
A não ser o que padece
O minuto espera pra virar
O relógio respeita
Uma hora bate
O ponteiro, à espera da colheita
O tempo colhe a paciência
Daqueles que tiveram a decência
De esperar
Esperar
Viver a esperar, não
Esperar a viver
Do alto da sua calma
Que fizesse com ela
O que se faz com noss'alma
Espera a verdes mares
Vivencia novos ares
Mas no fundo, a via
Esperar é o que fazes
Por mim a via
Havia quem quisesse
Que tomasse outro caminho
A não ser o que padece
O minuto espera pra virar
O relógio respeita
Uma hora bate
O ponteiro, à espera da colheita
O tempo colhe a paciência
Daqueles que tiveram a decência
De esperar
Esperar
Viver a esperar, não
Esperar a viver
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18 de julho de 2013
Não foi fácil
Pensava ser impossível
Tornar um hábito tão grácil
Inacessível
Me esquecia do suprassumo
Ver e não guardar
Alterar e não mostrar
Mas por que não memorizar?
Um terço do inverno se foi
E sofri tanto menos quanto condicionava
Agora está tudo seguro
Nos rincões da memória, escrava
Pensava ser impossível
Tornar um hábito tão grácil
Inacessível
Me esquecia do suprassumo
Ver e não guardar
Alterar e não mostrar
Mas por que não memorizar?
Como seria aquela imagem
Voavam os ventos neurais
Criavam earlybird; retoques finais
Glamourosos filtros substanciais
E sofri tanto menos quanto condicionava
Agora está tudo seguro
Nos rincões da memória, escrava
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11 de julho de 2013
Photos
Tão exibida tão exibida
Sob efeito de ópio
Postava a vida
Postava a vida
Prostrava sobre um telescópio
Teve um, aquele, este
Fotos demais
A do Nordeste
Ficou, aliás
Ficou, aliás
A rede era um álbum
Álbum a rede era
Só que ninguém reparava
A água corria
A enxurrada descia
E a foto era o resto; restava
Só que ninguém reparava
A água corria
A enxurrada descia
E a foto era o resto; restava
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poesia
4 de julho de 2013
Conversa de botequim
- Vem cá, você não acha que a Ivete Sangalo, esse povo aí da Globo, fazem parte de uma seita?
- (silêncio)
- Todo mundo que entra lá faz sucesso, pra mim é muito óbvio que eles fazem parte de alguma seita secreta.
- Eu não acredito que você acredita nisso.
- Eu que não acredito que você, um cara ligado na internet, não saiba disso.
- (silêncio)
- Todo mundo que entra lá faz sucesso, pra mim é muito óbvio que eles fazem parte de alguma seita secreta.
- Eu não acredito que você acredita nisso.
- Eu que não acredito que você, um cara ligado na internet, não saiba disso.
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29 de junho de 2013
Brayan, uma parte do todo
Ontem
de manhã, quando eu li a manchete "Assaltantes matam menino boliviano"
e, na linha fina, algo como "Brayan, de 5 anos, chorava desesperado no
colo da mãe", fiquei atônito por vários minutos. É impossível pra
qualquer pessoa que conheça a inocência de uma criança se distanciar de
um fato assim. Enquanto lia aquela construção linear e fria do
acontecimento, pensava na confusão na cabeça do menino, vendo seus pais desesperados e sob a mira daquele cano preto, talvez até desconhecido pelo garoto.
Eu não tinha a mínima conjetura sobre a ação dos bandidos. Não passava pela minha cabeça uma justificativa para aquele desfecho - não que haja explicação cabível, mas eu buscava algo. Era uma criança que, indefesa, chorava. Crianças choram quando se sentem ameaçadas. Caralho, o mundo todo sabe disso!
Passou pela minha cabeça logo em seguida o caso de outro menino, João Hélio, que morreu em circunstâncias que não carecem de ser lembradas, afinal reforçam o estigma. Lembrei também, não sei por que, de um crime épico: o assassinato da família Clutter (pai, mãe e dois filhos), fato-protagonista da obra-prima de Capote, "A Sangue Frio".
Mas seja pela atualidade do ocorrido, ou pelo nível trágico, ainda matutei por alguns instantes, até que parei e olhei bem para aquela descrição: "menino boliviano". Boliviano. Doeu um pouco mais onde quer que estivesse doendo.
Brayan, boliviano. Da mesma nacionalidade daqueles ambulantes que trabalham sem registro vendendo quinquilharias nas praças de São Paulo? Ou que tocam por horas com suas antaras e charangos, também à margem? Ou, pior, que agonizam em regime de escravidão no Brás, no Bom Retiro?
Sim, Brayan nasceu no mesmo país que eles. Brayan veio ao Brasil assim como eles, provavelmente incluído por tabela no desejo dos seus pais de buscar uma vida melhor aqui, nos EUA da América do Sul. Brayan - assim como os ambulantes, os músicos e os escravos das confecções - sempre foi ignorado por nós. Até ontem.
Ah, mas estou sendo circunstancial, pensei. O que tem a ver? Talvez nada, talvez um pouco ou quase tudo. "É cultura". Não, não é cultura. É xenofobia.
Quanto ao crime, que investiguem minimamente. Que interroguem o grupo e perguntem, por favor, se o sr. responsável pelo disparo sabe por que a criança chorava.
Foto que tirei de uma banda familiar boliviana se apresentando em frente ao Parque Trianon, em julho de 2012, na Avenida Paulista.
O pequeno flautista era muito bom.
Eu não tinha a mínima conjetura sobre a ação dos bandidos. Não passava pela minha cabeça uma justificativa para aquele desfecho - não que haja explicação cabível, mas eu buscava algo. Era uma criança que, indefesa, chorava. Crianças choram quando se sentem ameaçadas. Caralho, o mundo todo sabe disso!
Passou pela minha cabeça logo em seguida o caso de outro menino, João Hélio, que morreu em circunstâncias que não carecem de ser lembradas, afinal reforçam o estigma. Lembrei também, não sei por que, de um crime épico: o assassinato da família Clutter (pai, mãe e dois filhos), fato-protagonista da obra-prima de Capote, "A Sangue Frio".
Mas seja pela atualidade do ocorrido, ou pelo nível trágico, ainda matutei por alguns instantes, até que parei e olhei bem para aquela descrição: "menino boliviano". Boliviano. Doeu um pouco mais onde quer que estivesse doendo.
Brayan, boliviano. Da mesma nacionalidade daqueles ambulantes que trabalham sem registro vendendo quinquilharias nas praças de São Paulo? Ou que tocam por horas com suas antaras e charangos, também à margem? Ou, pior, que agonizam em regime de escravidão no Brás, no Bom Retiro?
Sim, Brayan nasceu no mesmo país que eles. Brayan veio ao Brasil assim como eles, provavelmente incluído por tabela no desejo dos seus pais de buscar uma vida melhor aqui, nos EUA da América do Sul. Brayan - assim como os ambulantes, os músicos e os escravos das confecções - sempre foi ignorado por nós. Até ontem.
Ah, mas estou sendo circunstancial, pensei. O que tem a ver? Talvez nada, talvez um pouco ou quase tudo. "É cultura". Não, não é cultura. É xenofobia.
Quanto ao crime, que investiguem minimamente. Que interroguem o grupo e perguntem, por favor, se o sr. responsável pelo disparo sabe por que a criança chorava.
Foto que tirei de uma banda familiar boliviana se apresentando em frente ao Parque Trianon, em julho de 2012, na Avenida Paulista.
O pequeno flautista era muito bom.
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