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14 de maio de 2014

Mors

Corre
Olha; não pisca
Duas rodas próximas
O medo mais ainda

Dos pixels à rotina
Descamisada
Quando cheguei nada entendi
Agora vou à padaria, escolho, pago, trago aqui

Trago o cigarro-relógio
Explico:
Quando ele acaba, acaba eu
E no lugar do visor, breu

Meu mosteiro foi efêmero
Entrei, entendi, rezei nele todo por um tempo mas saí
O purgatório, duradouro, ah, me tira sarro
Acaba hoje, amanhã, junho, julho, junto com o cigarro

Findam contentes ele e eu e o resto num desaprumo
Não consegue ver o fim do fumo
O resto fica, sofre, agita
Até que Ela, preterida, visita


4 de maio de 2014

Catarina

À minha mãe
Teve esperados nove meses
A mim
Teve esperados 28 anos

Eu?
Dei sorte, não a esperei
Revelou-se desde o zero
Com uma manta, um óculos de grau experiente, daquele magrelo

A cada aniversário, um bolo
Diferentes bolos
Guaranás iguais, com vestes de papel cuja pretensão de enfeitar era
Uma pretensão

Aos domingos, me levava ao toboágua
Na infância
Porque hoje, hoje tem outras coisas
Não hoje de hoje, hoje desde mais de década

Que eu não vou ao toboágua
Eu vou na casa dela
Cear a comida dela
Cessar a saudade dela

Já quase me matou várias vezes
De medo
Por ameaçar viajar
Tão, tão cedo

Aí eu sofro duma ausência ainda inexistente
Adianto autoflagelo
Porque quando o tempo chegar, certamente
Haverei de querer lembrar momentos; um, singelo:

Baile de formatura
Me viro, percebo uma dupla de janelas marejada
O que foi, Vó? Ouso
Nada, filho; a Vó tá só emocionada.



28 de novembro de 2013

Crença na descrença

Nasce-se crente
E a descrença de quem crê é ilusão
Não se iluda, então
Crer no copo cheio de antemão

As pessoas às pessoas, tudo
Se faz o bem, faz-se o bem
Se faz o mal, faz-se o mal?
De onde vem o mal?

Nasce-se bom
E a crença na bondade é ilusão
Não me iludo, então
Bom que se crê, maldição

Ao homem corrompido, meu pesar
Apesar que há de se escolher
Entre o bom, o mau, creio eu
Creio tu, creio ele, creio vós; creio em nós

Creio mais não
De tanto crer, cresci

Mas não como a soberba criança
Que pra crescer sobe no muro
Muro alto, alto, bem alto
Olha! Sou mais alto que o senhor, senhor

Está acima de mim, sim
E vai viver aí? Nesse horror?
Altura plástica, artificiosa
Induzida, sem labor

2 de novembro de 2013

As palestras desmotivacionais de Clécio

- Há quem diga que o otimismo é a chave da conquista. Pois eu digo que não há no mundo alguém que tenha conseguido algo só mantendo uma ideia positiva sobre determinado objetivo. A chave para o triunfo é se desmotivar quanto a ele. Vocês aqui presentes não irão passar na faculdade, crianças. Talvez alguns passem, mas só talvez. E se alguém de vocês passar, terá um péssimo caminho a ser trilhado. Caminho esse que não levará a nenhum futuro brilhante. Não haverão empregos que compensarão os dias perdidos estudando sob a perspectiva da expectativa. Recompor-se também não está no script. Vocês precisam se desmotivar e eu estou aqui para ajuda-los nisso, mas não vou conseguir - apresentava-se Clécio.

O futuro a Deus pertence. Mas Clécio sabia prever uma parte genérica do que seria o porvir: um completo fracasso. E essa era a arma do palestrante nas suas apresentações em auditórios geralmente lotados em colégios particulares de São Paulo. O público era quase sempre composto de jovens de 16 ou 17 anos, todos sob a pressão de conseguir uma vaga em alguma faculdade renomada. O papel do convidado era de, visivelmente, tirar dos garotos qualquer tendência a ver as coisas de forma positiva. Assim, despretensiosos, acabavam involuntariamente distensionados.

Clécio não se importava com as críticas que jornalistas andavam fazendo sobre ele em suas perniciosas colunas, diariamente. Havia quem argumentava com a psicologia, dizendo que uma vez pessimistas, os garotos se desiludiriam e se desmotivariam inclusive quanto a suas carreiras, suas vidas. Mas que carreiras? Rebatia Clécio, quando sua mulher mostrava os artigos dos jornais. Eles não vão chegar a ter essa perspectiva.

Aquilo não era um personagem construído para as palestras. Clécio era realmente o paladino do pessimismo. Casado e pai de dois filhos (os quais ele não acreditava serem seus), sobrevivia do dinheiro ganho com as apresentações nas escolas. Mas nem com a fama do boca a boca ele conseguia aumentar seu rol de colégios. Marketing pessoal não era seu forte; ao se apresentar àqueles diretores que exigiam conversar com ele antes de expor seus alunos à palestra, fazia o oposto à autopromoção. Sou péssimo com palestras, não lido bem com público e eles dificilmente conseguirão aliviar o peso da pressão do vestibular.

Clécio defendia o pessimismo. Mas não achava ele bom. Afinal de contas, acreditar friamente que o pessimismo evita frustrações é, de certa forma, ser otimista. Era difícil manter uma linha totalmente coerente. Por isso as perguntas dos alunos só duraram nas primeiras palestras, até que João Victor, potencial engenheiro da Petrobrás daqui uma década, levantou-se para dizer que sua mãe sempre o incentivara a acreditar em si mesmo, a ser positivo quanto ao futuro que o esperava. João dizia que sua mãe, um case de sucesso, sempre fora assim e hoje alçava voos cada vez mais altos. Quem é sua mãe, rapaz? Graça Foster, doutor Clécio.

Com o tempo, as coisas na vida de Clécio continuaram se mostrando monótonas, inertes. Nada mudava, tudo dentro dos conformes. Sem decepção, sem ovação. Aliás, não mencionei, mas Clécio pedia antes de suas palestras que os professores avisassem aos alunos para não baterem palmas. Não sei o que sou capaz de fazer se aplaudirem.

Porém a carreira de palestrante estava prestes a acabar (ele nunca achou que seria duradoura, diga-se). Um jornalista, daqueles maldosos, associou o suicídio de um aluno à palestra de Clécio. Era verdade que o rapaz, de 16 anos, havia acompanhado a palestra no dia anterior à morte. E que tinha comentado com amigos que agora tudo fazia sentido. Nada faz sentido.

Clécio ficou bastante abalado e decidiu, por um tempo, parar com as idas às escolas. Não tardou foi convidado a voltar a ativa. Clécio agora palestra em concursos de beleza.

15 de agosto de 2013

Orgasmos clitorianos

Riso que se ri de verdade
Largo, o sorriso, de uma vez só
Porque seria covarde
Um riso ambíguo dá dó

Porque dá dó
Não há melhor
Melhor que ela
Sommelier

Veja bem, tinha sábado
No pão doce
Mas sábado cedo
Aquele cedo que dava medo

Ah! Sábado não, muitos
Reuniões soturnas
Cedo, à tarde, à noite
Como quem entra no açoite

O pensamento até se esvai
Frente à visão que me penetra
De um mundo notívago
Ah! Pensando bem, você e o mundo, assim; não

Mas la vie en rose seria bom, mademoiselle
Mais le son de ma voix, sei lá
Est-ce un rêve
Ou la réalité?

Ah! Sinatra acertar, ainda há de ter
Vinho, charme, français
Muitos sonhos
E open-admiração (minha)

‘Cause more
And more
And more, much more than this

You did it your way

22 de julho de 2013

Esphera

Fui reportado à paciência
Do alto da sua calma
Que fizesse com ela
O que se faz com noss'alma

Espera a verdes mares
Vivencia novos ares
Mas no fundo, a via
Esperar é o que fazes

Por mim a via
Havia quem quisesse
Que tomasse outro caminho
A não ser o que padece

O minuto espera pra virar
O relógio respeita
Uma hora bate
O ponteiro, à espera da colheita

O tempo colhe a paciência
Daqueles que tiveram a decência
De esperar

Esperar
Viver a esperar, não
Esperar a viver

18 de julho de 2013

Instagram

Não foi fácil
Pensava ser impossível
Tornar um hábito tão grácil
Inacessível

Me esquecia do suprassumo
Ver e não guardar
Alterar e não mostrar
Mas por que não memorizar?

Como seria aquela imagem
Voavam os ventos neurais
Criavam earlybird; retoques finais
Glamourosos filtros substanciais

Um terço do inverno se foi
E sofri tanto menos quanto condicionava
Agora está tudo seguro
Nos rincões da memória, escrava


11 de julho de 2013

Photos

Tão exibida tão exibida
Sob efeito de ópio
Postava a vida
Prostrava sobre um telescópio

Teve um, aquele, este
Fotos demais
A do Nordeste
Ficou, aliás

A rede era um álbum
Álbum a rede era

Só que ninguém reparava
A água corria
A enxurrada descia
E a foto era o resto; restava

4 de julho de 2013

Conversa de botequim

- Vem cá, você não acha que a Ivete Sangalo, esse povo aí da Globo, fazem parte de uma seita?
- (silêncio)
- Todo mundo que entra lá faz sucesso, pra mim é muito óbvio que eles fazem parte de alguma seita secreta.
- Eu não acredito que você acredita nisso.
- Eu que não acredito que você, um cara ligado na internet, não saiba disso.

29 de junho de 2013

Brayan, uma parte do todo

Ontem de manhã, quando eu li a manchete "Assaltantes matam menino boliviano" e, na linha fina, algo como "Brayan, de 5 anos, chorava desesperado no colo da mãe", fiquei atônito por vários minutos. É impossível pra qualquer pessoa que conheça a inocência de uma criança se distanciar de um fato assim. Enquanto lia aquela construção linear e fria do acontecimento, pensava na confusão na cabeça do menino, vendo seus pais desesperados e sob a mira daquele cano preto, talvez até desconhecido pelo garoto.

Eu não tinha a mínima conjetura sobre a ação dos bandidos. Não passava pela minha cabeça uma justificativa para aquele desfecho - não que haja explicação cabível, mas eu buscava algo. Era uma criança que, indefesa, chorava. Crianças choram quando se sentem ameaçadas. Caralho, o mundo todo sabe disso!

Passou pela minha cabeça logo em seguida o caso de outro menino, João Hélio, que morreu em circunstâncias que não carecem de ser lembradas, afinal reforçam o estigma. Lembrei também, não sei por que, de um crime épico: o assassinato da família Clutter (pai, mãe e dois filhos), fato-protagonista da obra-prima de Capote, "A Sangue Frio".

Mas seja pela atualidade do ocorrido, ou pelo nível trágico, ainda matutei por alguns instantes, até que parei e olhei bem para aquela descrição: "menino boliviano". Boliviano. Doeu um pouco mais onde quer que estivesse doendo.

Brayan, boliviano. Da mesma nacionalidade daqueles ambulantes que trabalham sem registro vendendo quinquilharias nas praças de São Paulo? Ou que tocam por horas com suas antaras e charangos, também à margem? Ou, pior, que agonizam em regime de escravidão no Brás, no Bom Retiro?

Sim, Brayan nasceu no mesmo país que eles. Brayan veio ao Brasil assim como eles, provavelmente incluído por tabela no desejo dos seus pais de buscar uma vida melhor aqui, nos EUA da América do Sul. Brayan - assim como os ambulantes, os músicos e os escravos das confecções - sempre foi ignorado por nós. Até ontem.

Ah, mas estou sendo circunstancial, pensei. O que tem a ver? Talvez nada, talvez um pouco ou quase tudo. "É cultura". Não, não é cultura. É xenofobia.

Quanto ao crime, que investiguem minimamente. Que interroguem o grupo e perguntem, por favor, se o sr. responsável pelo disparo sabe por que a criança chorava.


 





















Foto que tirei de uma banda familiar boliviana se apresentando em frente ao Parque Trianon, em julho de 2012, na Avenida Paulista.

O pequeno flautista era muito bom.